sábado, 9 de outubro de 2010

A ENTREVISTA DO CIRO GOMES NA FOLHA...

Não morro de amores pelo grande Ciro, mas em respeito aos amigos que lhe admiram, transcrevo na íntegra a entrevista do cara na Folha de São Paulo de ontem:
Ciro diz que 'aprendizes de mafiosos' do PT fizeram eleição ir para o 2º turno
RANIER BRAGON
DE BRASÍLIA 

Integrado nesta semana à coordenação da campanha de Dilma Rousseff (PT), o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), 52, afirma que escândalos do PSDB, aliados a outros patrocinados por "aprendizes de mafiosos" do PT, formam a "frouxidão moral" que teria levado parte eleitores politizados a descarregar votos em Marina Silva (PV) e levar a eleição para o segundo turno.
O deputado volta a criticar o PMDB, principal partido aliado a Dilma, dizendo que há contradições "graves" e ainda não resolvidas na aliança, embora seja "impossível" governar sem essas contradições.
Candidato preterido pelo Planalto na disputa presidencial, Ciro diz que não tem perfil nem lhe foi pedido para ser "paz e amor".
Com isso, afirma se sentir liberado para passar por cima das "cordialidades conservadoras" impostas aos candidatos, entre elas a questão sobre o debate em torno do aborto.
Ele diz que Dilma e Serra têm "rigorosamente" a mesma opinião sobre o tema e ataca justamente boa parte da ala religiosa conservadora que a campanha petista procura não melindrar, afirmando que posições defendidas por "mulás, talebans e aiatolás" são usadas pela oposição para tentar fraudar o resultado da eleição.
Folha - Deputado, o sr. é da região Nordeste. Dilma foi bem votada lá, apesar da abstenção muito alta em alguns Estados. O que o sr. pode acrescentar de novo, de relevante, para a campanha dela neste segundo turno?
Ciro Gomes - O segundo voto mais relevante, especialmente o voto mais qualificado nas grandes capitais brasileiras, Fortaleza, Recife, Salvador, foi o voto dado à Marina. E eu quero crer que o pulso fundamental desse voto é de natureza ideológica e ética. Claro que tem ali uma base religiosa. Mas o essencial e relevante desse voto é de natureza ideológica e ética. E o segundo turno a gente tem obrigação de explicar às pessoas, que por simpatia deram esse voto, por intransigência ética, correta, que estão de saco cheio desses escândalos do PSDB e do PT, de quanto se parecem no ruim. As pessoas quiseram dar uma oportunidade a uma coisa nova, mais arejada, mais leve, menos pesada, menos rancorosa. Mas essas pessoas ao mesmo tempo são progressistas. Pra nossa sorte, são classe média, escolarização razoavelmente boa.
O sr. pode contribuir nesse convencimento...
É, no Brasil, a Marina foi primeiro lugar em BH. É preciso discutir com essas pessoas e dar a elas os argumentos para que elas relativizem a simpatia correta que tiveram pela Marina e entendam que agora o que está em discussão não são nossas simpatias, mas o futuro do país, antagonizado por dois projetos que felizmente são muitos claros.
Isso leva a uma frase que o sr. disse, a tal da "frouxidão moral", que afetou essas pessoas.
PSDB e PT.
O que é PSDB e PT? O caso Erenice é um exemplo?
Não, você pergunte isso pro PSDB. Pra mim, que sou aliado do PT, você pergunte aos do PSDB. Então vou te dar aqui todo o conjunto de prática que esse grande jornalista que é o Elio Gaspari [colunista da Folha] chama de privataria, o processo de privatizações. O cidadão está no telefone falando com o FHC, então presidente da República, dizendo que operaram no limite da irresponsabilidade [na verdade, a conversa captada pelos grampos do BNDES, em 98, é de Ricardo Sérgio com o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros]; o Serra nomear pro centro de eventos de São Paulo um banqueiro chamado Márcio Fortes, do Rio [Fortes foi nomeado presidente da Emplasa em 2009]; o Serra assumir a Prefeitura de São Paulo e, como primeira providência hospedar os saldos da Prefeitura de São Paulo em um banco privado [em 2005, Serra tentou repassar ao Itaú e ao Bradesco o gerenciamento das principais contas bancárias da prefeitura]. Não adianta você escrever que não sai, não é publicada essa informação. E, do outro lado, os aprendizes de mafiosos do PT, que de vez em quando mandam uma dessa.
Caso Erenice, por exemplo?
Isso é você quem está dizendo.
O sr. não pode exemplificar?
Eu sou militante desse lado, eu tô exemplificando por que essas pessoas, fartas dessa similitude no negativo, deram 20% qualificadíssimos de votos na Marina. E esses é que vão dar felizmente para o Brasil a vitória à Dilma.
Para ficar claro, o sr. considera que há "frouxidão moral" tanto lá quanto aqui, mas aqui o sr., por ser militante...
Não, não é que eu não prefiro não dizer. A questão básica é que eu tenho medo da edição que você vai fazer no jornal, já antecipadamente lhe disse isso, por um certo facciosismo da mídia brasileira, que eu considero absolutamente normal. Nenhum problema em relação a isso.
A votação da Marina deu uma ideia que havia espaço para uma terceira via no país. Até há alguns meses, o sr. tentou ser essa terceira via, foi até estimulado pelo presidente Lula, na época do governo. O sr. acha que o presidente errou ao patrocinar, nos bastidores, uma articulação para que o PSB não lhe desse a legenda?
Erramos todos nós. O Brasil não cabe nessa falsa polarização que a política de São Paulo pretende impor ao conjunto do país. Mas quem mais duramente sabe disso é o Lula. Ele, o nosso campeão, o mais exuberante dos nossos quadros, o mais popular dos nossos quadros, nunca ganhou nenhuma eleição no primeiro turno.
Mas ele assumiu esse erro? Ele tentou desta vez [ter uma candidatura única de sua base como forma de vencer no primeiro turno]?
Sim, mas esse é um erro de todos nós.
Então ele reconheceu um erro?
Não. Mas não é hora de tratar disso, é hora de pensar no futuro. Se eu fosse pensar nisso, não estava aqui. Ao contrário do que essa nossa querida mídia também diz, eu não me movo por ressentimentos (risos).
Os aliados estariam cobrando um Lula mais "paz e amor", com classe média, com imprensa. Uma Dilma mais "paz e amor". E o sr. é conhecido por não ser exatamente paz e amor, é uma pessoa franca, bateu, levou. Como conciliar uma campanha "paz e amor" com o sr. na coordenação nacional?
Veja bem, eu lhe dou um doce dos bons se você me disser um único precedente em que eu fui agressivo sem ser em reação a uma injustiça. Se você disser assim: 'O Ciro tomou a iniciativa de ser agressivo porque é um cara que tem temperamento agressivo'. Qual é o inimigo meu na política pessoal, em 32 anos de vida pública? Agora, o que eu acho, e talvez [seja] uma das razões de eu ter sido convocado, é que o futuro do país não admite essas cordialidades conservadoras. Porque a cordialidade conservadora mantém por cima da mesa essa aparência de elegância e faz a coisa mais imunda, sabe, e mais do que imunda, ameaçadora do futuro dessa nação, por debaixo dos panos. Por exemplo: você não sabe a campanha que está acontecendo na internet, incitando o ódio religioso, você não tem ideia disso?
Mas apoiadores do PT também estão fazendo isso contra o Serra.
Viva a democracia e viva a República e condene quem estiver fazendo isso, seja quem for. Porque, amigo bom, você é um jornalista. O dia em que gente permitir que o Brasil, que é admirado no mundo inteiro pela sua pluralidade, pela sua tolerância, pela sua laicização, por sua capacidade de todas as crenças sincreticamente se celebrarem aqui, sem violências, sem ódios, porque sempre mantivemos isso fora da política. Está se fazendo isso. Estou chamando a atenção.
Há limites. Determinados oportunismos tem que ser banidos, porque eleições se ganham e se perdem, mas as construções das bases em que uma cidadania se afirma... O Brasil pode estar experimentando nesse instante um retrocesso. Eu no dia em que precisar consultar o aiatolá da minha comunidade para tomar uma decisão civil, eu estou fora. Que ela vá lá ele mesmo, ele o aiatolá, o mulá, que vá lá e tome conta ele mesmo.
O sr. está falando do caso do aborto?
Não estou falando do caso de aborto, estou falando de toda a tentativa... Aborto. Vamos falar de aborto. Quem é no planeta terra que pode ser a favor do aborto? Pelo amor de Deus, eu tenho uma filha, eu namorei com algumas moças, sou de origem modesta. Então, o abordo é uma tragédia, é uma tragédia humana, emocional, psicológica, de saúde pública, religiosa, moral, ética, uma tragédia. Quem pode ser a favor do aborto, pelo amor de Deus?
O debate é sobre a descriminalização...
Não, aí você tem um grande debate não resolvido no planeta: que relação o Estado deve ter com essa tragédia. Nunca houve no Brasil uma possibilidade de o presidente arbitrar essa questão. É que nem a velha pergunta do preço do feijão e do pãozinho, é a velha pergunta do Fernando Henrique: FHC, você acredita em Deus?
Mas o presidente tem certa influência no debate.
Tem pela manipulação do ódio religioso. Porque aí é que está o problema. Você discutir perplexamente, como o assunto recomenda, sem preconceito, esse drama de saúde pública, esse drama moral, pelo ângulo que você quiser, é um assunto. E não é o presidente da República. Em nenhuma circunstância o presidente da República tem poder nenhum sobre isso. É o Congresso Nacional, que por sua vez não tem a menor coragem de tocar no assunto, nem esse nem o próximo, tranquilize-se o brasileiro. Contra ou a favor, infelizmente, até por omissão, o Congresso Nacional brasileiro não tratará do assunto. Não dirá nem que sim nem que não. Continuaremos fazendo todos de conta que o rico pode fazer do jeito que quiser em uma clínica muito bem limpinha e que a pobre vá se ferrar enfiando uma agulha de tricô na vagina porque os mulás, os talebans e os aiatolás não querem que se discuta o assunto. Infelizmente vai continuar assim.
Esses mulás, esses aiatolás, esses talebans estão em parte apoiando a Dilma.
Sim, mas o Serra tem uma opinião diferente? A opinião do Serra e da Dilma sobre esse assunto é rigorosamente a mesma. Para o bem ou para o mal.
Mas por que agora ela não deixa claro... Por exemplo, em 2007 ela teve uma posição [a favor da descriminalização], agora mesmo que por pressão desses grupos ela evita...
A manipulação de um assunto dessa polemicidade e dessa complexidade por incitação de ódios religiosos funda no Brasil, e funda no Brasil de uma forma grave, um retrocesso de mais de 200 anos, ou mais de 300 anos, no tempo em que a inquisição se instalou no Brasil, quando caiu o príncipe Maurício de Nassau, iluminista, e se queimou gente em praça pública. Essas cobras é bom de matar no ovinho logo.
A coluna de hoje [06.out] do Fernando de Barros [e Silva, colunista da Folha, que escreveu que o debate do segundo turno vem sendo pautado pela "cabeça de Severino Cavalcanti", ex-deputado, ativista católico antiaborto] diz que o debate parece estar sendo pautado pela cabeça de Severino...
Li, brilhante. Brilhante, mas o Fernando Barros é um jornalista. Mas não [está pautando]. Hoje, lá na coordenação, agora já falo como membro da equipe. Eu tenho tanta confiança no povo brasileiro, na sabedoria e maturidade democrática do povo brasileiro, que eu não vejo centralidade nisso. Eu vejo um esforço oportunista de tentar fraudar o resultado natural da eleição, trocando o debate que importa, que é concepção de futuro, de modelo de Estado, relação do Estado com a economia, como vai fazer com o petróleo do pré-sal, se vamos entregar para as multinacionais estrangeiras, ou vamos manter estatizado, como é a nossa concepção, por esse debate que não tem solução, que incita o ódio, que bota o demônio na história. Bota o demônio, meu companheiro.
Como ela sai dessa, na visão do senhor, armadilha?
Acho que ela tem que perguntar ao Serra se ele assume a responsabilidade de que ela tenha alguma posição equivocada ou criminosa em relação a isso. Eu, se fosse ela, faria isso.
Posição criminosa seria defender a legislação como é hoje, como seria?
Seja como for. O presidente da República não tem nada com isso. A Dilma só fala que é contra o tempo todo.
Contra o a aborto. Mas e a descriminalização?
Mas esse é outro problema, do Congresso. O que o Presidente da República tem com isso? Pergunta o que que ele acha, pergunta ao Serra se ele achou natural, por exemplo, introduzir nos genéricos a pílula do dia seguinte? Há mulás e talebans contra. Consideram abortiva. E o Serra é o responsável, de boa fé, quero dizer, como bom ministro da saúde que foi, pela pílula do dia seguinte [A pílula do dia seguinte é um dos métodos contraceptivos criticados pela Igreja Católica e distribuída pelo Ministério de Saúde. Sua adoção foi decidida antes de Serra ser titular da pasta, mas sua distribuição ocorreu em sua gestão e foi ampliado no governo Lula]. Rigorosamente. O Serra pensa rigorosamente, eu conheço o Serra há 25 anos, pensa rigorosamente igual à Dilma nesse assunto. Então se alguém quer definir o seu voto no segundo turno por esse assunto, infelizmente não vai conseguir.
Qual é o pensamento dos dois?
Que esse assunto não é do presidente da República. Cada um deles é contra, mas cada um deles tem uma preocupação com a questão do impacto disso na saúde pública e cada um deles acha que o Congresso Nacional, na hora madura, deverá amadurecer essa questão. Uns acham um pouco mais fortemente que a legislação, como está, que permite o aborto em casos de estupro e em casos de ameaça à saúde da mãe, pode. Outros acham talvez que podem avançar e modernizar um pouco mais, mas nenhum dos dois pensa diferente. Quer definir o voto? Então ache outro assunto, esse não vai dar para distinguir.
Retomando uma pergunta: para sair dessa "armadilha" então a Dilma teria que perguntar ao Serra se ele libera ela uma posição mais...
Se ele assume a responsabilidade por essa campanha de difamação, de calúnia e de mentira que clandestinamente grassa com um certo coadjuv... de nossa querida mídia? O Serra tomou uma decisão. Quem botou em vigor, que autorizou o uso pelas meninas, o uso da pílula do dia seguinte? O Serra. Diga-se, a bem da verdade, em muito boa hora, como bom ministro da saúde que foi. (...) "Serra, cê assume que tá mandando distribuir DVDs apócrifos dizendo que quem votar não sei o que vai para o inferno? Cê acha que é assim que a gente tem que decidir na política? Ou, mais explicitamente, qual é a sua posição sobre o aborto? Ou, Serra, você acha que a sorte do nosso país, a relação desse grande país com o mundo, a relação desse país com 40 milhões de pessoas pobres, deve ser resolvida pelo ódio religioso que o moralismo mal posto está querendo colocar pela sua militância clandestina?"
Mas está explorando o moralismo na coligação dela.
Hoje eu disse lá no PT. Por que tanto o PT é assim? Por causa do moralismo exacerbado que vocês sempre manipularam contra os outros.
A posição do sr. sobre o aborto, qual é?
Eu agora não posso ter posição pessoal, mas eu fui candidato a presidente duas vezes, minha posição é mais clara um pouco. Eu acho que o Estado nacional brasileiro não tem nada a ver com esse assunto. Esse é um assunto da intimidade humana, moral, ética e religiosa da família e da mulher, especificamente. Ou seja, não tem nada que criminalizar coisa nenhuma. Isso é a minha particular opinião, pessoal, não tem nada a ver com a opinião da Dilma, que é contra.
O PT aprovou isso: [resolução em que] a mulher decide a relação...
Agora será profundamente desonesto se você tirar todo o entorno desse assunto que eu fiz e reduzir o assunto a "Ciro assume a coordenação de Dilma e se revela favorável à coisa". Isso não é honesto.
PMDB. O sr. falou muito já sobre o partido. Peguei frases recentes como a de que [Michel] Temer [presidente do partido e vice de Dilma] estava chefiando uma turma de pouco escrúpulo e um ajuntamento de assaltantes.
Essa frase de ajuntamento de assaltantes eu nunca disse. Isso foi uma armação feita pelo iG. Eu nunca dei essa entrevista e nunca deixei de assumir coisas que falei. [Ciro contesta entrevista publicada pelo portal quando sua candidatura estava praticamente sepultada. Mas em entrevista que deu logo após ao programa "É Notícia" (RedeTV!), do repórter especial da Folha Kennedy Alencar, Ciro repetiu boa parte da argumentação que saiu publicada. Nessa entrevista, Ciro falou a frase sobre o "ajuntamento de assaltantes" que nega ter dito. E atribuiu a Temer a chefia desse grupo: "O PMDB tem tantas virtudes e defeitos como qualquer outro partido. O problema é a hegemonia. Hoje quem manda no PMDB não tem o menor escrúpulo, nem ético, nem republicano, nem compromisso público, nada. É uma ajuntamento de assaltantes, na minha opinião. (...) Acho que o Michel Temer hoje é o chefe dessa turma. Dessa turma de pouco escrúpulo."] Eu volto a esse assunto. Eu penso que essa aliança PT e PMDB tem contradições graves. Nunca deixei de pensar isso. Sou aliado do PMDB no Ceará, acabamos de eleger um senador do PMDB, o vice nosso é do PMDB. Mas aí é reducionismo da nossa querida mídia, as vezes é por falta de espaço. O assunto é complexo daí você quer reduzir a simplificações grosseiras. Então eu acho que há uma contradição, mas no Brasil é impossível governar sem essa contradição. O que é preciso é preciso é pôr sobre essa contradição uma hegemonia moral e intelectual clara. E isto que eu acho que ainda falta.
O sr. queria se referir [nas frases anteriores] ao Temer [vice de Dilma] especificamente?
Não, estou falando de Eduardo Cunha [PMDB-RJ, deputado federal, aliado de Temer], de Orestes Quércia, que acompanhou o Serra. Vamos ter essa clareza. Todo mundo olha a contradição no lado da Dilma, agora o Quércia, o famoso, o notório, o conhecido Quércia, do jornal do seu lugar, acompanhou o Serra, votou no Serra, está com o Serra no segundo turno.
Em relação à essa entrevista do iG...
Nunca dei essa entrevista, em on ou off. Nunca dei. Eu conversei com ele dizendo que não ia dar entrevista, e como confiava nele, fui dizendo por que não ia dar. "Porque estou aborrecido, quero pensar um pouco mais, passa amanhã."
Mas o que ele pôs lá, ele mentiu em alguma coisa?
Ele fraudou tudo. Mentiu. Em várias coisas. Descontextualizou pelo menos tudo.
"Lula viajou na maionese", "Serra mais preparado do que Dilma"...
Viajou na maionese ele. Desonestamente. Aí ligou para mim 50 vezes, tenho registro das coisas aqui, dizendo: "Porra, você não sei o que, tal". "Não, rapaz, você estava me pedindo a entrevista, eu confiei em você, disse que não queria lhe dar entrevista, que dava entrevista amanhã às 11h, tá na coisa, e tal" [aí ele pergunta] "Por que você não quer dar entrevista, tá muito zangado?". Aí eu disse, "é natural, né, cara? Natural, vê o que fizeram comigo", assim. Por que ele não colocou essa parte?
Mas nessa conversa informal o sr. chegou a falar o que foi publicado?
Parte sim, parte não. A parte que fala, por exemplo, "Lula não é santo". Veja se a frase é a mesma: o Lula é uma figura extraordinária, a figura mais exuberante que eu já conheci na minha vida, a maior liderança da história popular da história brasileira, e olha que eu acho que o maior presidente não foi ele, foi o Juscelino [Kubitschek]. Olha, ele não é Deus. O que eu quero dizer: ele tá errado nisso, pra que correr o risco de botar os ovos numa cesta só? Amanhã basta discrepar um, vai ser o PSOL, vai ser não sei quem, a Marina sai, vai tirar 15%, vai ter segundo turno. Tá tudo dito, o que está acontecendo. Então, foi alguma coisa que desmerecesse o Lula se você colocar a frase inteira? [descontextualizou] Tudo. Tudo. Porque estava a serviço, evidentemente. E eu, bobamente, confiei. [Procurado, o iG não se manifestou até a publicação dessa entrevista]
Concluindo outra pergunta: então não haverá um Ciro "paz e amor"?
Eu sou uma pessoa só, para o bem e para o mal. Evidente que à medida que o tempo passa vou ficando um pouco mais maduro. Não diria um pouco mais sereno, porque você vai rir, mas também estou um pouco mais sereno diante das coisas todas. A primeira reação espontânea minha seria [dizer]: "Não, se virem aí, vocês não me dispensaram? Se virem aí". Eu não senti nem remotamente a vontade de dizer isso, só me deu vontade de vir ajudar. Estou pensando no país. Não quero participar do governo de ninguém, tô com vontade, tô feliz da vida.
O sr. disse que só age agressivamente em reação a injustiças. Se for provocado, reagirá agressivamente?
Ninguém me pediu nada. Inclusive perguntei ontem: com é a tarefa aqui? Eu não sou um pensador, não sou homem de ficar aqui em Brasília trancado em reunião com petista. Eu quero ajudar nessa fase, se minha opinião de 32 anos de vivência valer alguma coisa. Mas eu quero é ir é para a rua. E na rua, eu sou eu. Aí respondo eu pelas minhas opiniões, a Dilma não tem nada a ver com isso. Todo mundo sabe que a Dilma é a Dilma, que eu tenho restrições à aliança dela, que eu tenho divergências de conceito com o PT, que até exponho com clareza. Então...
Então ninguém te pediu pra maneirar?
Eu tô doido é para ir pra casa, tô doido para ficar quieto. Se não fosse o interesse nacional que, na minha opinião, tão gravemente está em jogo, eu queria estar quieto. Ficar quieto não. Cuidando lá da paróquia, onde ela ganhou com 66% dos votos.
Olhando lá da paróquia, houve mesmo sapato alto [na campanha da Dilma], em sua opinião?
Veja bem, só com muita arrogância e muito equívoco para não ter a noção do fenômeno extraordinário que a Dilma foi. Eu mesmo achava que o grande risco era a Dilma, por inexperiência, dar uma escorregada violenta, isso não aconteceu. A Dilma, seis meses atrás, ninguém sabia quem era ela. Na primeira eleição vai a 47% dos votos, isso é um fenômeno extraordinário. Agora, quem imaginou que seria um passeio e coisa e tal cometeu um equívoco.
Mas não foi o dedaço do presidente Lula, a transferência de votos?
Pouco importa, né? O Serra é quem, quem é o Serra? Quem é o Serra, rapaz? Fernando Henrique. Quem inventou o Serra foi o FHC. Serra nunca passou de um deputado federal brilhante, coisa e tal, mas um deputado federal de pouco voto. Ministro do FHC oito anos, candidato do FHC contra o Lula. O Lula escolheu o melhor quadro que poderia escolher na coalizão do PT. No PT ninguém teria mais qualificação do que aquela que o Lula escolheu.
No governo, o presidente Lula alguma vez alimentou esperança no sr. explicitamente de transformá-lo em candidato à sua sucessão?
Isso é assunto para as minhas memórias.
Está escrevendo?
Não, tô novinho demais para isso. E os personagens estão todos vivos ainda.
Concluindo aquela entrevista ao iG, o Brasil está à beira de uma crise fiscal e cambial [outra frase atribuída a ele]?
Temos um problema no câmbio, sem dúvida, e um problema fiscal também. [Para de falar e mostra um editorial do jornal "O Globo"]. O olhar do "Globo" é que devíamos cortar os aposentados, matar os funcionários públicos, extinguir o Bolsa Família e gerar excedentes para baixar os juros e o câmbio deslizar para uma posição de desvalorização. O problema da desvalorização do câmbio é causado por um erro de estratégia e conservadorismo, mas não sou eu quem vai corrigir. Seria se eu fosse o presidente. Agora, não serei o presidente, só sou um cabo eleitoral.
O que o sr. acha das propostas do Serra de salário mínimo de R$ 600, de aumento para os aposentados?
Todas muito bem intencionadas, mas a grande pergunta é: por que quando ele foi ministro oito anos do FHC fez tudo o oposto? Bem o oposto. Ele me chamou de mentiroso porque eu disse que quando eu era ministro da Fazenda o salário mínimo era equivalente a US$ 100, na verdade era US$ 97,80. Eles reduziram para o menor valor real da história --US$ 76 quando o Lula tomou posse. E o Lula tá pagando o maior salário mínimo da história sob o ponto de vista real, desde quando foi criado por Getúlio Vargas. Claro que ainda é muito baixo, então alvíssaras de que o Serra prometa. A pergunta é porque não fez quando teve oportunidade. O Bolsa Família eles passaram o tempo inteiro em uma grande dubiedade. De um lado, que isso era uma esmola. E deu outro, que isso foi uma criação deles. O DEM, que é vice, entrou na Justiça contra o Prouni. Isso é fato. Vamos discutir uma posição insolúvel desse ou aquele militante sobre o aborto quando o fato real é esse? Cento e vinte mil garotos brasileiros acabaram de formar na primeira turma do Prouni. Eles entraram na Justiça para proteger o interesse nas mensalidades escolares, na rede privada de educação, que aliás foi criação do Paulo Renato, ministro da educação do FHC e secretário de Educação do Serra, que por sua vez patrocinou a destruição do ensino superior público brasileiro. Pergunte à Andifes. Isso é o que interessa para o povo. Saúde, educação, emprego, moradia, relação do Estado com a vida do povo. Eles lutaram no Congresso para entregar para as multinacionais o pré-sal. Defenderam enlouquecidamente o marco regulatório privatizante do petróleo, nós pensamos diferente.
Em 2006, o Alckmin começou na defensiva naquela questão da privatização, e agora a campanha da Dilma aparentemente começa na defensiva pela questão do aborto...
Mas tem uma diferença brutal. Naquela era verdade, nessa é falsa, nessa é armação.
O sr. teve uma atuação no Congresso um pouco afastada do plenário e recentemente transferiu o título para São Paulo. Sua eleição para deputado e a transferência do título foram erros?
Cumpri uma missão nas duas questões. A primeira me engrandeceu, aprendi bastante. Mas saio dessa experiência muito preocupado. Enquanto nossa querida mídia exalta essas mazelinhas de passagens, não sei o que e tal, isso aqui tem um colapso institucional crônico. Você tem 20 mil proposições pendentes de deliberação. Salvo a agenda do Executivo e salvo novas proposituras, levaríamos 10 mil semanas... Eu não tenho paciência para isso, alguém tem que ter, porque esse aqui é o santuário da democracia. Tá errado. A coalizão PT e PMDB, que hegemonizou isso aqui, foi o meu azar. Isso aqui já fez a Constituinte. Se eu tivesse tido sorte [de participar da Constituinte], cê ia ver um grande parlamentar, com ideias sobre todas as coisas. Mas quando fui fazer minha primeira ideia, que é uma espécie de lei de responsabilidade social, que tá pronta, com o mínimo de desempenho, federalismo de integração, que exigia uma legislação complexa, quando fui lá olhar, tinha isso, 20 mil proposituras pendentes de deliberação e a Câmara votando duas por semana. É só isso, é só politiquinha. Assiste a uma sessão para ver se eu não tenho razão. Cê não discute um assunto que interessa. O Eduardo Cunha (PMDB-RJ) apresentou uma emenda criando um crédito tributário de IPI de R$ 76 bilhões em uma medida provisória que criava um subsídio de R$ 1 bilhão para a casa própria. Fui para a tribuna, denunciei. Perdi por 300 a 120 votos. Passou no Senado, consegui que o presidente vetasse. A grande imprensa não falou nada, zero.
Sobre a transferência do título?
Aí foi o maior erro da minha vida, de boa fé. Atendi ao Lula, ao Eduardo Campos [presidente do PSB], mas foi, disparado, o maior erro que cometi em minha vida. Eu não quero mais ser candidato a nada. Zero, está tudo certo pra mim. Vou, como diz o meu filho, dar um tempo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

"PAPAI NOEL", O CLOWN (PALHAÇO) VERMELHO...(NÃO CONFUNDIR COM O CÃO VERMELHO...)






A onda vermelha que assola o país, influenciou o palhaço Papai Noel, que saiu de casa tentando achar tinta de cores fortes para pintar o rosto e animar uma festa de criança... Deu nisso aí... Segunda-feira tem outra organizada pelo pessoal de História da Uespi....

Na Idade Média


Cynara Menezes 8 de outubro de 2010 às 1:47h

Sem qualquer relação com o problema que leva milhares de mulheres à morte  todos os anos, o debate sobre o aborto virou uma arma dos conservadores
Em 3 de outubro, um domingo, os brasileiros acordaram cedo, votaram, decidiram democraticamente pelo segundo turno das eleições presidenciais e foram para a cama no século XXI. Mas acordaram no dia seguinte em plena Idade Média, com a religião e o aborto no centro do debate político. Como a eleição termina no dia 31, em pleno Halloween,nas redes sociais a candidata do PT, Dilma Rousseff, passou a ser tratada por seguidores de José Serra, do PSDB, como uma bruxa a quem será preciso queimar. O clima inquisitorial, patrocinado não só por evangélicos, como chegou a se  publicar, mas também por alas conservadoras da Igreja Católica, é estimulado pelos tucanos e democratas, que pretendem focar a campanha no tema.
Quando o Brasil foi dormir naquela noite, o aborto era uma questão séria de saúde pública. Realizado clandestinamente, é o responsável por 15% das mortes maternas no País, a quarta causa de óbito de mulheres durante a gestação. São realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) mais de 180 mil curetagens por ano, grande parte delas causada por abortos malsucedidos. De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília, mesmo proibido por lei, uma em cada cinco brasileiras com menos de 40 anos expeliu do corpo um feto por vontade própria.
Ao acordar na segunda-feira 4, o brasileiro deparou-se com a notícia de que esse grave problema havia se transformado num trunfo para tentar mudar o resultado das eleições, nas mãos de religiosos e políticos conservadores. Uma trama foi urdida nos subterrâneos do catolicismo mais arcaico para prejudicar a candidata Dilma Rousseff, retroalimentada pelos adversários eleitorais. A própria mulher do candidato José Serra, Mônica, chegou a dizer a um evangélico no Rio de Janeiro, em meados de setembro, que a petista “gosta de matar criancinhas”. Impossibilitados de atingir as classes mais baixas com algum halo de programa de governo, democratas e tucanos apelam para o aborto e para a religião em busca dos votos da classe C.
*Confira este conteúdo na íntegra da edição 617, já nas bancas.
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MAIS SAUDÁVEL PARA OS ELEITORES, PORÉM, MAIS VERGONHOSO PARA A IMPRENSA DO PIG DO SERRA , DO QUE O ABORTO!  É SÓ COMPARAR.





CIRO GOMES JÁ COMEÇOU A BATER... NO PT E NO PMDB...

Dando entrevista à Folha de São Paulo de hoje, o homem já começou a distribuir críticas e acusações veladas e chamando petistas de mafiosos... Pra quem precisava de uma coordenação para unir os partidos que já apoiaram e apoiam Dilma, pode se imaginar a confusão que o grande Ciro não é capaz de fazer... É tudo o que Lula e Dilma precisam para perder a eleição... Serra e o PSDB agradecem... Porraloquice, espalha merda? Por aí...  

BNB PROMOVE FESTA DAS CRIANÇAS NA CRECHE DOM ABEL

A criançada da creche escola Dom Abel, sob o comando da irmã Natividade, festejou o dia da criança com distribuição de presentes e lanche, em festinha acontecida agora de manhã, em sua sede na rua Cap. Manoel Félix. O gerente da agência local, José Gilberto, os funcionários Iran e Assis, entre outros, promoveram a distribuição de presentes e lanches. Aproximadamente 200 crianças participaram. No meio da criançada um palhaço, batizado de Papai Noel, pulou e dançou com elas e voltou à condição de criança, tirou do armário a roupa de palhaço animador de festa infantil em Brasília (as roupas estavam ligeiramente apertadas...) e improvisou uma maquiagem de última hora...
Recebi e transcrevo abaixo, o e-mail do meu amigo e irmão Gilberto Alves, uma das pessoas que mais tem me ajudado moral e materialmente aqui na cidade, onde ele dá mais informações sobre a festividade da Creche Escola D. Abel Alonso:

   O Banco do Nordeste - Ag. de Campo Maior - PI., a exemplo de anos anteriores, realizou conjuntamente com a Creche Dom Abel Alonso Nuñez, a festa do dia da criança.
   A equipe de funcionários da agência, realizou uma mobilização e adquiriu com recursos próprios e através de doações, brinquedos para 200 crianças que compõem referida instituição.
   O valoroso trabalho desenvolvido pela Irmã Natividade e equipe de professores, sempre recebeu o apoio dos que fazem o Banco do Nordeste, pela seriedade e alcance social que representa.
   O gerente do Banco do Nordeste, enfatizou que além do papel de agente fomentador do desenvolvimento na região, é também papel da instituição, apoiar empreendimentos como este,  qu contribuem na formação dos homens de amanhã. Concluiu agradecendo a Irmã Natividade, esta oportunidade que o Lar Dom Abel Alonso Nuñez ofereceu para que o Banco e funcionários pudessem mais uma vez se inserirem nas ações da comunidade.
Fizeram-se presentes pelo Banco do Nordeste, os gestores da agência, através do Gerente Geral José Gilberto e dos Gerentes Leonardo, Joice e o Agente de Desenvolvimento José Iran.
Nesta iniciativa o banco contou com o apoio da Agriplan, através dos Drs. Manoel Benicio e Tadeu, bem como do Teatrólogo Zeferino Neto - apresentando o palhaço Papai Noel, que promoveu a alegria da 200 criança e pais presentes.

MARINA TÁ TIRANDO O DELA DA RETA...

O noticiário dá conta de que Marina e a cúpula do PV não se entendem sobre o compartamento do partido e dela com relação aos candidatos que disputam a eleição no segundo turno, Dilma e Serra. O partido quer fechar claramente com Serra e o PSDB. Marina quer ficar em cima do muro e deixar o eleitorado dela livre pra se decidir... A pergunta da vez é: qual a tendência majoritária do voto do eleitor de Marina? Acho que alguma pesquisa que  talvez saia este fim de semana, balize os posicionamentos indecisos. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O VERMELHO E O VERDE


O segundo turno oferece a oportunidade para o encontro entre a esquerda histórica e uma nova cultura política. Um gesto simbólico de Lula e Dilma poderia abrir caminho para tanto
Agora, quando o resultado das eleições de 3 de outubro está emergindo em seu conjunto, já é possível fazer balanços mais abrangentes, menos enevoados por manipulações da mídia ou expectativas frustradas. Distinguem-se, no panorama que se abre, duas tendências consolidadas: as “ondas” vermelha e verde. Enxerga-se, além delas, uma oportunidade histórica: a possibilidade de articulá-las – não num acordo eleitoral fugaz, mas num diálogo e possível construção de longo prazo.
A “onda vermelha” veio antes, cronologicamente. Atingiu seu ápice em meados de setembro, recuando em parte nas três semanas anteriores às urnas. Significou um vasto desafio a alguns dos fatores que marcam a submissão social no Brasil, no passado e no presente. Entusiasmadas pelo tímido – porém inédito – movimento de redistribuição de riqueza ensaiado no governo Lula, as maiorias questionaram o poder dos coronéis (locais e regionais); a ditadura da mídia piramidal (inclusive a TV Globo); a influência dos “formadores de opinião” da classe média conservadora; a força dos velhos preconceitos econômicos, segundo os quais investimento público é sinônimo de “gastança”.
Os efeitos deste grande movimento são generalizados. Na disputa presidencial, a diferença entre PT e PSDB – os partidos que expressam, no imaginário popular, democratização e elitismo – alargou-se de 7 pontos percentuais, no primeiro turno de 2006, para 14,3 agora1. No plano estadual, o PT obteve vitórias emblemáticas no Rio Grande do Sul e, quase certamente, Distrito Federal. Tanto no Senado quanto na Câmara os partidos que compõem a base de Dilma ultrapassaram os 60% necessários para mudanças constitucionais.
No Senado, aliás, o DEM, melhor expressão da velha direita, viu sua bancada eleita em 2002 reduzir-se de 14 integrantes para apenas dois, agora; enquanto a do PSDB encolheu de 8 para 5. PSOL e PCdoB, que não haviam elegido senadores2 em 2002, têm agora, respectivamente, dois e um representantes. A casa ficou livre, além disso, de alguns ícones sagrados do conservadorismo, como Tasso Jereissati (PSDB-CE), Arthur Virgílio (PSDB-AM), Marco Maciel (DEM-PE) e Heráclito Fortes (DEM-PI). Na Câmara dos Deputados também houve guinada à esquerda, embora menos pronunciada3.
Já a “onda verde” formou-se na reta final da campanha. Em menos de vinte dias, Marina Silva (PT) passou de cerca de 12% das intenções de voto para 19,3%, no cômputo final. É o triplo do percentual (6,85%) alcançado por Heloísa Helena no primeiro turno de 2006, quando a então candidata do PSOL também representou uma espécie de terceira força. Mas a evolução qualitativa é ainda mais importante que a numérica. Heloísa expressava essencialmente uma frustração e um protesto – contra Lula e o PT. Setores da esquerda e (principalmente) da classe média, que idealizavam um governo mais radical (ou mais puro) que o real, descarregaram sua decepção na figura da senadora, amarga e embrabecida.
Marina é o passo adiante. Ela emociona-se ao descrever a angústia que sentiu, ao separar-se do PT. Reconhece os grandes avanços sociais dos últimos oito anos e o papel democratizador desempenhado pela esquerda histórica. Mas pensa isso não basta. Embora a enxurrada de votos que recebeu nos últimos dias tenha origens diversas e até contraditórias (como se verá adiante), o sentido político e simbólico que deu a sua candidatura é inconteste. Ela sugere que não basta integrar as maiorias nos padrões de produção e consumo do capitalismo, livrando-as da “exclusão”. É possível discutir os sentidos do desenvolvimento.
Afinal, que projetamos, como futuro coletivo? O “direito” dos pobres a seguir a classe média e mofar horas enjaulados em seus automóveis, todos os dias? O aumento indefinido da produção de energia, para que o consumo de latinhas de alumínio continue se expandindo? Casas para todos, mesmo que em regiões remotas das metrópoles, onde a natureza foi agredida e a mobilidade é quase nula? O título de maiores exportadores mundiais de alimentos, às custas de nossas florestas e preservando os latifúndios?
Marina não recebeu, é claro, apenas os votos de quem faz estes questionamentos. Ela foi beneficiada pelos eleitores que a mídia, após uma campanha abjeta e prolongada de calúnias, conseguiu tirar de Dilma – mas não foi capaz de transferir a Serra. Em seu colo caíram, também, as adesões por preconceito: gente amedrontada, nos grotões, por ouvir dizer que a candidata de Lula promove o aborto, é ateia, flerta com seitas satânicas. O PT deveria compreender que são circunstâncias da política institucional. Também ele foi beneficiado, mais de uma vez, por balas perdidas, nas disputas entre seus adversários. Para ficar num único exemplo, basta citar Maria Luíza Fontenelle, primeira prefeita eleita pelo partido numa capital (Fortaleza, 1985). Ela consagrou-se nas urnas também porque o PDS, partido da ditadura que recém-terminara, viu-se incapaz de derrotar Paes de Andrade (do PMDB, inimigo histórico) e preferiu descarregar seus votos na petista.
II.
Seria fácil para Dilma, Lula ou os partidos de esquerda que os apoiam, apontar em Marina o bode expiatório a necessidade do segundo turno – mas seria vão. Em contrapartida, um exame mais atento do resultado eleitoral serviria – em especial ao presidente, cuja argúcia política é reconhecida até pelos maiores adversários – para aprofundar e atualizar sua visão sobre a sociedade brasileira.
A emergência tão abrupta da figura política de Marina é mais um sinal de que o Brasil está mudando. Mas ao mesmo tempo em que confirma a potência das políticas de Lula, este fenômeno convida a atualizá-las, para que não se tornem repetitivas e obsoletas. A inclusão social, a criação da “nova classe média”, a “emergência das classes C e D” são reais e benvindas. Mas tende a repetir-se rapidamente, no Brasil, o choque que se deu entre o “welfare state” europeu e seus filhos rebelados de 1968.
Superada a “exclusão”, conquistado um lugar ao sol no pátio do capitalismo, uma nova questão se apresenta. Como continuar reinventando a vida? Certas análises muito recentes, sobre o primeiro turno brasileiro de 2010, tendem a diagnosticar a tendência de parte dos “incluídos” ao conservadorismo. Vencida a condição de miserável, uma parcela se tornaria refratária às propostas que sugerem novas mudanças: ou por temer regressar à condição anterior ou por querer diferenciar-se da massa dos pobres, que votam à esquerda. Esta seria a razão para Dilma ter obtido, no Nordeste e Norte – as regiões mais beneficiadas pelos programas sociais – dianteira inferior à que se previa.
Para testar esta hipótese, será preciso examinar os resultados das eleições em regiões sociais homogêneas, comparando-os com os de pleitos anteriores. Um exame mais profundo do fenômeno talvez revele um bifurcação em Y. Ultrapassadas as condições de desigualdade mais dramáticas, parte da sociedade pode tender, de fato, ao conservadorismo. Mas um outro setor – especialmente entre a juventude, de todos os extratos sociais – passa a reivindicar mudanças ainda mais profundas.
Ele alegra-se com a superação da miséria, mas isso apenas aguça seu desejo de uma vida nova. A simples exaltação das conquistas alcançadas não o anima. E repele (talvez sem realismo, mas certamente com razão…) os “efeitos colaterais” do que foi obtido. Neste grupo, estão os eleitores que se chocam, por exemplo, com a ausência de uma política ambiental avançada; com a devastação contínua (ainda que decrescente) da Amazônia; com a lentidão da reforma agrária e a conivência com o agronegócio predatório; com a construção de grandes obras sem esclarecimento suficiente de seus impactos ambientais; com o envenenamento e congestão das metrópoles; com as alianças com certos coronéis da política.
Marina seduziu, provavelmente, uma parte importante (talvez majoritária…) deste eleitorado. Ele não se confunde com a ultra-esquerda clássica. Por isso, não optou pelo PSOL (embora tenha, certamente, admirado sua participação irreverente e pedagógica de Plínio Sampaio nos debates). Nem presta atenção ao fato de a candidata do PV ter como vice um empresário cotado na lista Forbes dos bilionários globais; de voar a bordo do jatinho mais luxuoso da campanha; de ter, como assessor econômico, alguém mais neoliberal que o próprio Serra; de ter se filiado a um partido cujo passado é marcado pelo fisiologismo. Muito além da causa ambientalista, este eleitorado vê, no Verde de Marina, o símbolo de uma ideia-base: não basta matar a fome, nem incluir a todos na ordem atual; temos um mundo e um país a inventar.
III.

A existência de uma vasta parcela da sociedade que pensa assim é “algo nunca antes visto na história do Brasil”. Não vem ao caso, neste instante, debater os qualidades e limites da candidata, ou as inconsistências e contradições das forças em que seus planos se apoiaram. O importante, no momento, é perceber que Marina ajudou a expressar um fenômeno que Lula, Dilma e a esquerda que os apoia deveriam festejar, em vez de lamentar. Este setor, que se ampliará cada vez mais à medida em que ficar para trás a fase da mera “inclusão”, será contraponto aos “novos conservadores” e a seu peso imobilizante.
Promover o encontro entre o Vermelho e o Verde – ou seja, entre a esquerda histórica e os desejos de pós-capitalismo que emergem – é algo cuja importância vai muito além das eleições. Desta sintonia, difícil e delicada, porém necessária, dependerá a possibilidade de o Brasil continuar a ser, nas próximas décadas, um símbolo de criação política – muito mais que de “inclusão”.
Será excelente se surgirem, já na caminhada para o segundo turno, sinais de que tal confluência é possível. Eles terão de vir na forma de acenos de Lula, Dilma e partidos aliados a Marina e seu eleitorado. Cabe a quem exerce o governo sinalizar que pretende fazê-lo incorporando novas agendas, projetos e métodos – ou seja, revendo parte de sua prática. Não se deve esperar, em contrapartida, o apoio formal de Marina a Dilma. Se forem fortes e transmitirem sinceridade, estes gestos dialogarão diretamente com a sensibilidade do eleitorado Verde. Também servirão de contraponto a Serra; sua lógica puramente mercantil; seu governo enodoado pelo declínio da Educação paulista, repressão permanente aos sem-teto, sequência de incêndios suspeitos em favelas, maltrato aos moradores de rua, atos extremos como inundar a várzea pobre do rio Tietê, para preservar o trânsito de automóveis nas vias marginais.
Lula conhece como poucos a importância e força dos atos simbólicos. Terá diversas oportunidades para promovê-los. Narrada recentemente pelas novas mídias4, talvez a luta da Costa do Cacau baiana por um novo projeto de desenvolvimento é um dos terrenos em que a nova aliança poderia ser possível. Lá, a sociedade civil já está gestando, num esforço inédito, a sintonia entre o social, o ambiental e o pós-capitalista.
Situada no Sul da Bahia, estendendo-se das margens do oceano ao coração da Serra do Mar, a Costa do Cacau abriga um dos maiores remanescentes da Floresta Atlântica no Brasil. Empobrecida pelo declínio da lavoura cacaueira, parcialmente socorrida pelo Bolsa-Família (em Ilheus, um de seus polos, 47% dos moradores vivem graças a este direito; 52% vivem abaixo da linha da pobreza e a metade destes é considerada economicamente “miserável”), a região é agora ameaçada por um projeto extrativista-exportador – que tem, até o momento, o apoio dos governos nacional e baiano. Uma transnacional casaquistanesa pretende construir, em área de proteção ambiental, um porto para escoar importantes jazidas de ferro descobertas a cerca de 500 quilômetros, no interior. Fala-se ainda no chamado Complexo Porto Sul, que incluiria uma siderúrgica (a ser implantada em parceria entre a Votorantim e sócios chineses), um aeroporto internacional e um segundo terminal portuário, para exportação de grãos.
Dezenas de organizações sociais mobilizam-se para evitar a concretização do projeto. Mas, à diferença do que ocorreu com outras lutas ambientais recentes, elas têm uma alternativa concreta, formulada em detalhes. Não são anti-desenvolvimentistas: querem outro desenvolvimento. Seu projeto prevê transformar a região num polo de produção agrícola agro-industrial (cacau e chocolates) fortemente cooperativada – incentivando-se, em especial, os assentamentos de sem-terra; de difusão de conhecimento e novas tecnologias; de turismo ambiental e histórico.
Inspirada pelo conceito de eco-sócio-desenvolvimento, de Ignacy Sachs, a proposta preserva a natureza – mas gera, na ponta do lápis, ocupações muito mais numerosas e qualificadas que as oferecidas pelas mega-obras. As organizações que assumem a alternativa frisam que o Brasil é rico demais, cultural e ambientalmente, para reduzir-se à condição de exportador primário.
O licenciamento ambiental, ainda não concluído, sairá em breve, se prevalecerem os trâmites atuais. Para quebrar a rotina e sugerir uma mudança de rumos que enriqueceria seu legado, o Presidente poderia, por meio do ministério do Meio Ambiente, determinar a abertura de audiências públicas sobre o caso. Como novidade, bastaria determinar que, ao invés de ter como pauta a mera aprovação ou rejeição do projeto minero-exportador, elas se dedicassem ao exame comparativo das duas propostas.
É um exemplo, entre tantos outros possíveis. Em gestos singelos como este pode estar a chave para que o Vermelho e o Verde estabeleçam, no Brasil, uma sintonia estratégica que, além de mudar a face do país, teria imensa repercussão mundial

Antonio Martins é jornalista e votou em Dilma já no primeiro turno
(Extraido do site Outras Palavras em07/10/2010)

PTB, PP E PDT APOIARÃO WILSON NO SEGUNDO TURNO

O PTB do senador João Vicente Claudino, candidato derrotado ao Governo do Estado do Piauí, o PP do senador eleito Ciro Nogueira e o PDT do deputado Flávio Nogueira, candidato a vice na chapa de JVC, declararam apoio à campanha de reeleição do atual governador Wilson Martins (PSB). Wilson prometeu honrar os projetos apresentados pela coligação “Por Um Piauí Novo”, em seu novo governo. Com a nova aliança, fica recomposto antigo blocão do governo, integrado por 13 partidos. O senador JVC preferiu ficar de fora, mas liberou seus aliados e partidários.
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